Então, surgem poetas...

29/10/2004 00:56
AMIGOS !

Saudades de todos !
Estou em reta final de monografia... Sendo assim vou dividir com vcs um dos momentos desse trabalho !
Na postagem de hoje segue uma análise de um dos poemas de Oswald de Andrade que irei apresentar em minha defesa...
Em breve mais comentários sobre a saga da monografia..."Sob o sol de Pindorama: A transfiguração do nacional na obra de Oswald de Andrade"


Da seção: Postes da light

pobre alimária

O cavalo e a carroça
Estavam atravancados no trilho
E como o motorneiro se impacientasse
Porque levava os advogados para os escritórios
Desatravancaram o veículo
E o animal disparou
Mas o lesto carroceiro
Trepou na boléia
E castigou o fugitivo atrelado
Com um grandioso chicote



Essa seção, Postes da light, representa a fase de entrada do progresso no país. Por intermédio da figura do “poste da light”, ou seja, a luz elétrica, está subentendida a modernidade, a industrialização e com isso o tumulto e acentuação das desigualdades sociais.
“Pobre alimária” tanto pode representar o pobre e infeliz animal que puxava carroças e que foi sendo substituído por velozes e possantes veículos, quanto a figura do homem bruto e não instruído em oposição as figuras importantes e cultas presentes na sociedade.
O poeta utiliza elementos que contrastam entre si, representam mundos, tempos e classes sociais que se opõem. Esses elementos que simbolizam essa dualidade do arcaico e do moderno são substantivos simples: cavalo, carroça / trilho e motorneiro / carroceiro e advogado.
Nos quatro primeiros versos:
“O cavalo e a carroça
Estavam atravancados no trilho
E como o motorneiro impacientasse
Porque levava os advogados para os escritórios.”


Essa idéia de “cavalo e carroça” atravancados no trilho indica ao leitor que ao chegar a modernidade, materializada na figura dos trilhos, o que era útil, cavalo e carroça, tornou-se um empecilho para a contínua evolução da sociedade. Essa evolução é figurada pelo “motorneiro que levava os advogados para os escritórios”.
Pode-se sustentar tal afirmação em um estudo de Roberto Schwarz que comenta:

“ A cidade em questão é adiantada, pois tem bondes, e atrasada, pois há uma carroça e um cavalo atravessados nos seus trilhos. Outro sinal de adiantamento são advogados e os escritórios, embora adiantamento relativo, já que o bonde só de jurisconsultos sugere a sociedade simples, o leque profissional idílica ou comicamente pequeno.(...)
(...) O progresso é inevitável, mas a sua limitação, que faz englobá-lo ironicamente com o atraso em relação ao qual ele é progresso, também.”

No seis versos seguintes do poema:
“Desatravancaram o veículo
E o animal disparou
Mas o lesto carroceiro
Trepou na boléia
E castigou o fugitivo atrelado
Com um grandioso chicote”

O trecho configura a tentativa do rústico e obsoleto em equiparar-se ao moderno. Nessa tentativa defronta-se com a dominação, corporificada pelo carroceiro, e que malogra qualquer tentativa de êxito.
Sendo assim, o animal é castigado com um chicote, um objeto de mando, para que saiba seu verdadeiro local na sociedade. Tal representação acentua quadro de diferenças sócio-econômicas, o que evoca a idéia de determinismo: nascido inferior, sempre inferior:

“(...) existem também a hierarquia e o mecanismo comum: apoiado nos advogados, o motorneiro desconta no carroceiro, e este, apoiado num modelo cultural mais nobre ainda, mas também deslocado, desconta no cavalo: e quem garante que os advogados não estejam envolvidos no mesmo faz-de-conta, apoiados também ele pernosticamente, em títulos, prestígios e modos emprestados a sociedades mais ilustres ?”

Há um anonimato nesse trecho que fica evidente ao relegar o sujeito na expressão: “Desatravancaram o veículo”, que poderia ser interpretada como populares que cruzavam o local e portanto não precisaria se especificar a ajuda. A partir disso, o carroceiro ganha a mesma impaciência dos advogados e castiga o “fugitivo atrelado”, o cavalo, para que siga seu caminho e não mais atrapalhe o andamento agitado da cidade.
O poema portanto, apresenta uma estrutura que coloca idéias superpostas de desajuste da história social do país, pois caçoa, por meio das figuras contrastes da transição do antigo e do moderno, de um progresso atrasado que se configura na presença de um outro progresso, porém mais adiantado.
Poderia ser entendido que há um questionamento a respeito de que a modernidade não necessitaria necessariamente romper com o passado ou apenas dissolvê-lo, mas sim purificar seus elementos e rearranjar de forma atualizada e inventiva.

Por hora é só...

Estou com saudades, mas prometo aparecer nvamente em breve.
Torçam por mim !
Beijos afetuosos

Francinha

P>S: Segue uma foto de Oswald de Andrade...a razão de toda essa viagem literária... (Pessoal, leiam a obra dele ! É MARAVILHOSA !"

enviada por Surgem poetas






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