Então, surgem poetas...

04/08/2004 23:30
DISPERSÃO

Olá amigos !

Conforme já havia feito anteriormente, hoje estarei postando não um texto meu, mas sim mais um de meus autores preferidos.
Com vcs:

Mário de Sá-Carneiro (vale a pena pesquisar mais a respeito, a obra desse autor é fantástica !)

É um dos nossos maiores poetas do Modernismo Português, talvez o que melhor exprime a cisão do sujeito na enunciação de si próprio e na formulação da sua percepção do mundo, ora deceptiva ao jeito simbolista-decadentista, ora inebriada pelas sensações e entusiasmos do futurismo.

A sua poética afasta-se de uma preocupação meramente formal da experiência literária, centrando nela embora o seu discurso, mas nela fundamentando as interrogações e a afirmação de anseios que dão sentido a uma existência que no entanto as não encontra. O poeta põe termo aos seus dias, suicidando-se em Paris.


Sobre o título da postagem de hoje, DISPERSÃO, é o nome de uma das poesias de Sá-Carneiro que tenho muito carinho.
Faço uma pergunta para vcs: Quem nunca se viu "perdido" dentro de si mesmo ? Quem nunca sonhou tanto que perdeu-se dentro dos próprios sonhos e nem sentiu a vida passar ?...Quantas e quantas vezes nossos dias parecem tão iguais que apenas os seguimos em uma eterna busca ?...
São essas e tantas outras questões que me pego a pensar e a refletir quando leio este poema... Afinal, a vida é realmente um grande labirinto no qual passamos nossa existência inteira tentando encontrar uma saída para cada desalento.

Espero que cada um de nós consiga encontrar nosso verdadeiro caminho nessa jornada, e por hora apreciem:

DISPERSÃO...

Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto
E hoje, quando me sinto.
É com saudades de mim.

Passei pela minha vida
Um astro doido a sonhar,
Na ânsia de ultrapassar,
Nem dei pela minha vida...

Para mim é sempre ontem,
Não tenho amanhã nem hoje:
O tempo que aos outros foge
Cai sobre mim feito ontem.

(O Domingo de Paris
Lembra-me o desaparecido
Que sentia comovido
Os Domingos de Paris:

Porque um domingo é família,
É bem-estar, é singeleza,
E os que olham a beleza
Não têm bem-estar nem família).

Pobre moço das ânsias...
Tu, sim, tu eras alguém!
E foi por isso também
Que me abismastes nas ânsias.

A grande ave doirada
Bateu asas para os céus
Mas fechou-se saciada
Ao ver que ganhava os céus.

Como se chora um amante,
Assim me choro a mim mesmo:
Eu fui amante inconstante
Que se traiu a si mesmo.

Não sinto o espaço que encerro
Nem as linhas que protejo:
Se me olho a um espelho, erro
Não me acho no que projeto.

Regresso dentro de mim
Mas nada me fala, nada!
Tenho a alma amortalhada,
Sequinha dentro de mim.

Não perdi a minha alma,
Fiquei com ela, perdida.
Assim eu choro, da vida,
Eu nunca vi... mas recordo

A sua boca doirada
E o seu corpo esmaecido,
Em um hálito perdido
Que vem na tarde doirada.

(As minhas grandes saudades
São do que nunca enlacei.
Ai, como eu tenho saudades
Dos sonhos que sonhei!... )

E sinto que a minha morte
Minha dispersão total
Existe lá longe, ao norte,
Numa grande capital.

Vejo o meu último dia
Pintado em rolos de fumo,
E todo azul-de-agonia
Em sombra e além me sumo.

Ternura feita saudade,
Eu beijo as minhas mãos brancas...
Sou amor e piedade
Em face dessas mãos brancas...

Tristes mãos longas e lindas
Que eram feitas pr'a se dar
Ninguém mas quis apertar
Tristes mãos longas e lindas

Eu tenho pena de mim,
Pobre menino ideal...
Que me faltou afinal?
Um elo? Um rastro?... Ai de mim!

Desceu-me n'alma o crepúsculo;
Eu fui alguém que passou.
Serei, mas já não me sou;
Não vivo, durmo o crepúsculo.

Álcool dum sono outonal
Me penetrou vagamente
A difundir-me dormente
Em, uma bruma outonal.

Perdi a morte e a vida,
E, louco, não enlouqueço...
A hora foge vivida
Eu sigo-a, mas permaneço...

NOTA: A interpretação é livre ...Assim como nossos sonhos !

Abraços e até a próxima

Francis

enviada por Surgem poetas






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